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Ponta Grossa, quarta-feira, 03 de dezembro de 2008


Carta de um filho rejeitado
"eu sou pobre pobre pobre de marré marré marré..."

Me perdoe mamãe, mas cada vez que meu telefone toca  e que eu vejo que é você, mesmo sem querer me vêm à mente todas as vezes que eu te ligava, com dor na barriga, ou de ouvido, ou mesmo porque estava com medo do escuro... e você não me atendia.

Me perdoe mamãe, mas cada vez que vejo que você precisa de mim para lhe ajudar a andar, me lembro de quando eu precisava de seu apoio para meus primeiros passos, e ainda ouço sua voz jovial dizendo: "Vai menino preguiçoso, se vira".

Me perdoe mamãe, quando às vezes, no meio de meu trabalho, você pede para sua ajudante me ligar dizendo  que você precisa com urgência de uma fruta por estar com vontade, eu me lembro de lhe telefonar no meio da tarde, porque havia visto uma propaganda na TV, de um sanduíche, e você dizia: "Come qualquer coisa que passa essa vontade".

Me lembro ainda mamãe, quando estava ardendo em febre e você não podia deixar a festa em que estava para me atender.

Teve um dia... ou uma noite talvez, que eu estava com muita dor no meu ombro, até hoje não sei se havia quebrado ou não, depois de um jogo de futebol, e você estava tão ocupada no salão, fazendo suas unhas, que não podia me levar ao médico. Me recordo também que todos meus amigos usavam aparelho na sexta série, e eu sequer ia ao dentista.

Nas reuniões do colégio, alguns pais iam e a maioria eram as mães, que após a reunião ficavam horas (pelo menos para mim pareciam horas) conversando com as professoras, e você chegava na saída para me pegar... atrasada como sempre. E quando eu lhe perguntava porque não esteve na reunião, você me dizia sempre: não posso faltar ao trabalho por qualquer motivo.

E sempre, minha infância e adolescência, foram marcadas por "qualquer motivo": dentista, médico, reunião, ida à casa de amigos, trabalho em grupos, feiras de ciências, etc. etc. etc.

Hoje minha mãe, eu poderia estar cheio de motivos para estar ocupado demais para você, estar com compromissos mais importantes que você, mas , exatamente por ter vivido isso não seria, ou sou capaz de fazer isso com ninguém, nem que esse alguém seja o causador de minha frustração e rejeição.
Até porque mamãe, por sua causa, hoje sou um adulto tão feliz e bem quisto por onde vou e passo, porque, em cada rosto que vejo, busco a aprovação e o afeto que um dia busquei em você e não tive.
E isso me torna um adulto bem relacionado , alegre, quase um feliz, repleto de amigos e conhecidos.
Graças à você, repito, porque em cada um deles tento compensar o amor que me faltou na infância, que eu tento recompensar com estranhos que hoje habitam minha vida muito mais do que você pôde habitar um dia!

 

Psicóloga clínica com especialização em sexualidade, Mariângela Salomão participa dos meios de comunicação desde 1991. Participou de programas
de tv nas emissoras SBT, CNT, RECORD,BAND, nas rádios Atalaia, Colombo e Eldorado , escreveu por 8 anos no suplemento dominical da Gazeta do Povo -Viver Bem - ministra palestras e cursos de Educação Sexual, é autora do livro Sexo da Gente, com as 60 perguntas mais freqüentes sobre sexo. Atualmente tem um programa na CWB TV  às segundas feira, 19:30 hrs, aonde tira as dúvidas dos telespectadores e entrevista  personalidades de destaque da sociedade brasileira.
Contato: mariangelasalomao@hotmail.com


 





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