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Carta de um filho rejeitado
"eu sou pobre
pobre pobre de marré marré marré..."
Me
perdoe mamãe, mas cada vez que meu telefone toca e que
eu vejo que é você, mesmo sem querer me vêm à mente
todas as vezes que eu te ligava, com dor na barriga, ou
de ouvido, ou mesmo porque estava com medo do escuro...
e você não me atendia.
Me
perdoe mamãe, mas cada vez que vejo que você precisa de
mim para lhe ajudar a andar, me lembro de quando eu
precisava de seu apoio para meus primeiros passos, e
ainda ouço sua voz jovial dizendo: "Vai menino
preguiçoso, se vira".
Me
perdoe mamãe, quando às vezes, no meio de meu trabalho,
você pede para sua ajudante me ligar dizendo que você
precisa com urgência de uma fruta por estar com vontade,
eu me lembro de lhe telefonar no meio da tarde, porque
havia visto uma propaganda na TV, de um sanduíche, e
você dizia: "Come qualquer coisa que passa essa
vontade".
Me
lembro ainda mamãe, quando estava ardendo em febre e
você não podia deixar a festa em que estava para me
atender.
Teve um dia... ou uma noite talvez, que eu estava com
muita dor no meu ombro, até hoje não sei se havia
quebrado ou não, depois de um jogo de futebol, e você
estava tão ocupada no salão, fazendo suas unhas, que não
podia me levar ao médico. Me recordo também que todos
meus amigos usavam aparelho na sexta série, e eu sequer
ia ao dentista.
Nas
reuniões do colégio, alguns pais iam e a maioria eram as
mães, que após a reunião ficavam horas (pelo menos para
mim pareciam horas) conversando com as professoras, e
você chegava na saída para me pegar... atrasada como
sempre. E quando eu lhe perguntava porque não esteve na
reunião, você me dizia sempre: não posso faltar ao
trabalho por qualquer motivo.
E
sempre, minha infância e adolescência, foram marcadas
por "qualquer motivo": dentista, médico, reunião, ida à
casa de amigos, trabalho em grupos, feiras de ciências,
etc. etc. etc.
Hoje minha mãe, eu
poderia estar cheio de motivos para estar ocupado demais
para você, estar com compromissos mais importantes que
você, mas , exatamente por ter vivido isso não seria, ou
sou capaz de fazer isso com ninguém, nem que esse alguém
seja o causador de minha frustração e rejeição.
Até porque mamãe, por sua causa, hoje sou um adulto tão
feliz e bem quisto por onde vou e passo, porque, em cada
rosto que vejo, busco a aprovação e o afeto que um dia
busquei em você e não tive.
E isso me torna um adulto bem relacionado , alegre,
quase um feliz, repleto de amigos e conhecidos.
Graças à você, repito, porque em cada um deles tento
compensar o amor que me faltou na infância, que eu tento
recompensar com estranhos que hoje habitam minha vida
muito mais do que você pôde habitar um dia!
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Psicóloga clínica com
especialização em sexualidade, Mariângela Salomão
participa dos meios de comunicação desde 1991.
Participou de programas
de tv nas emissoras SBT, CNT, RECORD,BAND, nas rádios
Atalaia, Colombo e Eldorado , escreveu por 8 anos no
suplemento dominical da Gazeta do Povo -Viver Bem -
ministra palestras e cursos de Educação Sexual, é autora
do livro Sexo da Gente, com as 60 perguntas mais
freqüentes sobre sexo. Atualmente tem um programa na CWB
TV às segundas feira, 19:30 hrs, aonde tira as dúvidas
dos telespectadores e entrevista personalidades de
destaque da sociedade brasileira.
Contato: mariangelasalomao@hotmail.com
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