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Ponta Grossa, sexta-feira, 05 de dezembro de 2008

A Viagem

 


Rita Vaz

 

Os dois estavam discutindo dentro do carro.
Alex ao volante, e Laura, sua esposa, no banco do passageiro.

O carro deles era novo, e esse era um dos motivos pelo qual eles tinham decidido viajar até a casa dos pais de Alex, se aventurando pelas rodovias.

Viajavam há mais de quatro horas, e o dia estava acabando.

Era aquela hora do entardecer em que nem está claro o suficiente para apagar os faróis, e nem escuro o suficiente para acendê-los. Numa bifurcação tinham pego o caminho errado.

E essa era a discussão dos dois naquele momento.
Laura tinha certeza disso, do caminho errado, mas Alex não admitia o erro.

Ela falava que estavam numa estrada muito sinuosa e deserta. Alex teimava em seguir em frente pelo seguinte motivo: encontraria alguém ou um posto de combustível para pedir informações.

Nervosa, Laura tentou usar o celular. Mas, no lugar onde estavam não conseguiam sinal.

A discussão foi crescendo. Um dizia para voltar, e o outro queria seguir em frente.

Quando menos esperavam, um animal atravessou a pista na frente deles, bem no início de uma curva acentuada. Foi nesse momento que Alex perdeu o controle do carro.

E só parou quando bateu de frente em uma rocha, acabando com todo o carro.

A frente ficou toda amassada, os vidros quebraram todos, e o carro ficou desequilibrado por ter subido num pequeno morro antes da batida.

Algum tempo depois, Alex foi o primeiro a acordar. Demorou um pouco para entender a situação e assimilar aquele silêncio intenso, depois de tanto barulho. Já era noite.

Laura ainda não acordara, o que deixou Alex apreensivo. Ele levantou sua cabeça e assustou-se com a quantidade de sangue que tinha no rosto dela. Na mesma hora ele desprendeu os cintos de segurança dos dois e começou a gritar o seu nome. Pouco tempo depois para alívio dele, Laura começou a voltar a si.

Também demorou um pouco para entender a situação. Mas, logo os dois agradeciam por estarem vivos, apesar de tamanha colisão.

Tentaram sair do carro, mas Laura não conseguiu. Suas pernas estavam presas às ferragens.

Mas, o mais estranho e bom ao mesmo tempo é que ambos não sentiam dores, apesar dos cortes, arranhões e pernas presas.

Como não passava ninguém por aquela estrada, Alex, nervoso demais com a espera resolveu voltar a pé e pedir ajuda.

Quando tinha se afastado uns cinqüenta metros do carro, ouviu o barulho do motor de um outro veículo. E foi como se o dia tivesse voltado. Alguém finalmente os ajudaria.

O veículo parou e dois homens saíram dele correndo e se dirigiram para o carro de Alex. Ele teve a impressão de que os dois não o tinham visto do lado de fora do carro.

Quando se aproximou deles, percebeu a expressão de horror na face dos dois. Eles passavam a mão na cabeça, com muito pesar. Alex falava para eles ajudarem, que o ajudassem a tirar Laura lá de dentro, mas eles não davam atenção a ele.

- Vocês estão ficando loucos? Isso é uma brincadeira? O que está acontecendo? Eu preciso de ajuda!!!

Um dos homens voltou ao veículo e usou o rádio para pedir ajuda.

Pouco tempo depois, um helicóptero chegou ao local.

Alex estranhou a falta de pressa deles. Laura estava presa, onde estavam os bombeiros para tirá-la do meio das ferragens?

Aos poucos percebeu que os homens puxavam um outro corpo de dentro do carro, que não era o de Laura.

Assustado e paralisado com a cena horrível que via, não entendendo aquela desordem no mundo, percebeu finalmente o que tinha acontecido.

Deparou-se com seu próprio corpo sem vida, sendo retirado das ferragens.


Rita de Cássia Vaz Machado é natural de Curitiba, graduada em Administração de Empresas pela Fundação de Estudos Sociais do Paraná, é casada e mãe. Desde pequena acostumou-se a ler,
sendo essa uma de suas paixões além, é claro, do seu amor pela escrita.
É uma das autoras do livro "50 Contos por 14 Autores".
Cursou a Oficina do Livro.
Contato:
ricavm@uol.com.br


 





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