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Ponta Grossa - terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Muita gente nunca ouviu falar. Afinal, esse "Brasilzão" tem muita terra e muita história. Mas o Projeto Jaíba está lá, no norte de Minas Gerais, quase na divisa com a Bahia, envolvendo cidades da região de Jaíba, Matias Cardoso e Manga, desde a década de 70.
Canais de irrigação internos das propriedades

O Projeto Jaíba é um perímetro de irrigação fruto de uma parceria entre o Governo Federal e o Governo do Estado de Minas Gerais. Os estudos iniciais para sua implementação datam da década de 50, mas somente no final dos anos 60 foi identificada
uma área de 230 mil hectares com potencialidade para a agropecuária, sendo que 100 mil hectares para a agricultura irrigada, entre os rios São Francisco e Verde Grande.
Os dois níveis de governo são representados no Projeto pela CODEVASF (Federal) e RURALMINAS (estadual).
Foi a RURALMINAS, inclusive, que iniciou a instalação do que seriam as quatro fases do Projeto, em 1972.
Com o fim de irrigar 100 mil ha de solo arenoso e tornar possível a produção de frutas, hortaliças e grãos e promover o desenvolvimento da região, a agricultura irrigada foi identificada como a única atividade capaz de levar desenvolvimento sustentável à área, geralmente vítima de grandes períodos de seca.

A concepção básica do projeto dividiu a área em quatro patamares de irrigação que definem atualmente as quatro etapas de implantação do empreendimento: Jaíba I, II, III e IV.
Em bom português, a área toda foi dividida em quatro partes e cada parte dividida em outras tantas. A terra, teoricamente, barata, é vendida através de processos licitatórios.

A infra-estrutura, com canais percorrendo as propriedades, faz parte do Projeto, mas levar a água a cada pé de fruta, a cada área plantada, é obrigação do proprietário (titular do lote).

Assim, embora um hectare de terra no Projeto Jaíba possa custa até 30 vezes menos que um hectare de terra cultivável no Paraná, o investimento para que a irrigação efetivamente aconteça, é alto e requer muito planejamento.

Hoje, já são mais de 1600 produtores na região, pequenos, médios e de grande porte. Boa parte dedica-se à exportação de sua produção, como os atuais agricultores de limão, reunidos em diversas associações.
De todas as propriedades do Projeto, que permanece em sua Etapa II de ocupação, identificamos seis propriedades com administração experiente do pessoal dos Campos Gerais. Ponta-grossenses, carambeienses e castrenses levaram seus métodos de trabalho para o Projeto Jaíba, sendo a Fazenda Simonica a mais antiga dentre as de origem “paranaense”. Lá, planta-se milho, banana caturra, limão, manga, atemóia e pinha.
 


Plantação de manga

 


Manga com 2 anos


Manga com 4 anos de idade

 


Flor de mangueira


Milho com pivot
 
Banana caturra:cachos pesados vergam o pé
Apesar da parceria com o governo estadual, o Projeto está sob controle da CODEVASF e a administração da água dá-se pelo Distrito de Irrigação de Jaíba, este, com 20 anos de atuação. O distrito tem um Coordenador Técnico eleito pelo Conselho de Administração que, por sua vez, é eleito pelos usuários da água, titulares dos lotes. A atual sede do Projeto é em Mocambinho, cidade localizada entre Jaíba e Janaúba, também detentora do único aeroporto da área.

Os titulares dos lotes pagam o K2, referente ao uso (consumo) da água, que é uma taxa mensal. A CODEVASF também cobra o K1, taxa anual que cada produtor paga para a manutenção da infra-estrutura das estradas e dos canais.

Aquele que compra terras em uma licitação, tem até dois anos para derrubar a mata, período em que paga uma taxa de consumo mínimo, menor que o K2 e o K1.
A plantação
A cultura de característica perene, como banana, manga, goiaba, atemóia, limão e pinha, é dominante em todo o Projeto. As áreas de fruticultura são irrigadas por microaspersão ou gotejamento. Em suma, um sistema que requer quilômetros e quilômetros de canos e equipamentos, distribuídos em cada árvore.
 


Atemóia

 


Pinha

Uma beleza de vista para os olhos, culminada com o verde e as flores de cada variedade de fruta. No Projeto Jaíba, encontra-se manga Tommy, Palmmer e Kate; lima ácida tahiti, bananas caturra e prata, dentre outras variedades.

Para se ter uma idéia da eficiência da irrigação nos lotes do Projeto, hoje, Minas Gerais é o 5º. Produtor de banana do país. Segundo o IBGE, a produtividade no Estado gira em torno de 15 toneladas por hectare, já em Jaíba, é de 29,1 toneladas por hectare, quase o dobro da média estadual.

Há também produção de grãos, cana e hortaliças em alguns lotes, geralmente com irrigação em sistema pivot[1]. Culturas como milho, feijão e abóbora se revezam sob os pivots. O sistema precisa ser muito bem administrado, pois além da sua instalação demandar alto investimento financeiro, também exige muita água para seu funcionamento, já que pode perder grande parte com evaporação.
A multinacional Dow Agrosciences Industrial Ltda, por exemplo, tem uma Unidade de Produção em Janaúba, na qual processa sementes de milho e sorgo que foram produzidas sob sua total supervisão em lotes do Projeto.

Nesta cultura específica, mais uma vez, as propriedades “paranaenses” têm apresentados bons resultados (acima da média geral), já que seus administradores já estavam acostumados com esta atividade em suas propriedades anteriores.



Também na região, a empresa Best Pup produz pasta básica para catchup, com tomates plantados na Etapa II do Projeto. Há outras empresas, de diversos tamanhos.
A Pomar Brasil empregará em pouco tempo cerca de 1300 funcionários.
A Sada cuida da produção de cana para combustível; M. Pessoa, Brasnica (banana) e Ibá (café) também são alguns nomes presentes.
As Associações
Os muitos quilômetros de plantação não significam, necessariamente, fácil escoamento da produção. Para que isso aconteça, os produtores precisam atender as exigências do mercado, principalmente o de exportação, altamente fiscalizado e regulado.

Para atender esses requisitos e manter os padrões mínimos de qualidade, os produtores organizam-se em associações. A ASLIM – Associação dos Produtores de Limão do Jaíba, por exemplo, tem apoio do município de Matias Cardoso e acaba de receber um lote de terra para estabelecer sua sede e a casa de packing, onde o limão é separado para embalagem e distribuição.

Da packing house, o limão pode seguir para os portos de Salvador ou Ilhéus e de lá, se dentro dos padrões e normas da Global Gap, para o porto de Rotterdam, na Europa. A ASLIM reúne 16 produtores com lotes no Projeto Jaíba e os custos de sua administração são arcados por produtor, conforme o volume de produção de cada um.
Áreas de Preservação
O Projeto tem sua própria área de Reserva Legal, administrada pela CODEVASF. Na região também existe a Reserva Biológica Serra Azul, com cerca de 7285 hectares (e atualmente sub júdice em relação aos seus limites, que devem ser reduzidos a menos de 3000 hectares) e o Parque Estadual Lagoa do Cajueiro.

Estas áreas e as demais do Projeto, todos os anos, correm o risco de amplas e irrestritas queimadas durante os períodos de estiagem, muito comuns de julho a outubro de cada ano.
Futuro
A cidade de Jaíba, que anteriormente pertencia à Matias Cardoso, está em seu 5º. Mandato legislativo. Em 10 anos, triplicou de tamanho: dos cerca de 10 mil habitantes do final dos anos 90, hoje conta com mais de 30 mil.

Ainda tem limitações bastante severas: a cidade não é uma Comarca e hoje, todos os processos, sejam cíveis, criminais ou trabalhistas, são sediados na Comarca de Manga, cidade com menos de 15 mil habitantes, distante há mais de 50 quilômetros e na outra margem do Rio São Francisco, o quê exige travessia com a balsa (saídas a cada 30 minutos) ou nos “popós”, pequenas embarcações tocadas a motor.

As estradas, ainda que com asfalto, encontram-se em péssimo estado, ainda mais prejudicadas pelo período de chuvas, que se estende de dezembro a março. Nem todos os municípios da região contam com Delegacias ou policiamento intensivo. O sistema de comunicação ainda é bastante precário e grandes propriedades contam com acesso à Internet por satélite, mas de baixa qualidade.

No caso de queimadas, os órgãos estaduais e federais entendem-se responsáveis somente pelo combate do fogo nas áreas de reserva, não havendo um plano de ação eficaz para auxílio aos proprietários que sejam afetados.

A cidade de Montes Claros, com nível universitário e a mais próxima com aeroporto comercial, fica há 270 Km. Há possibilidade de o trecho ser reduzido pela recuperação de uma rodovia, mas de concreto, até o momento, não há nada.

Potencial para crescer mais e se tornar ainda um maior pólo agrícola e exportador, existe. No papel, a possibilidade de implementação das Etapas III e IV, mas ainda sem fundos de investimento para tanto. É preciso vontade política, tanto nos níveis regionais, quanto estadual e federal, para se buscar novos investidores e se divulgar mais o Projeto. A população local só teria a ganhar, com mais empregos e aumento conseqüente da renda. É possível. Mas, por enquanto, vamos aguardar os próximos capítulos.


Canais de irrigacao internos das propreidades
e Instalação de Irrigação Por Microaspersão

Saiba mais sobre o Projeto Jaíba:
http://www.projetojaiba.com.br/
http://www.codevasf.gov.br/programas_acoes/irrigacao
http://www.ruralminas.mg.gov.br/index.php?option=comcontent&task=view&id=35&Itemid=91
http://www.ruralminas.gov.br/jaiba/portug/projeto/projeto.htm


[1] Pivot é a irrigação através de uma tubulação metálica no qual são instalados aspersores, os quais recebem água de um mecanismo central sob pressão. Este tipo de irrigação se apóia em torres metálicas triangulares, que se move através de um dispositivo elétrico que possui uma lateral única de 200 a 800 metros que “gira” sobre a plantação, distribuindo água sobre a mesma.

 

 

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